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Artigo publicado por Henderson Barbosa - 24/07/2014
O desafio de identificar as causas do câncer
"Mapeamento que começa a ser realizado este mês em Campinas vai estudar a influência de causas ambientais no aparecimento de câncer infantil"
O desafio de identificar as causas do câncer - BoituvaSP O câncer em crianças em adolescentes é um dos principais desafios da medicina hoje. Considerados a mais importante causa de óbito atualmente na faixa etária entre 0 e 19 anos em países em desenvolvimento, atrás apenas dos acidentes e violências, os tumores malignos pediátricos e juvenis desenvolvem-se de forma diferente em relação a pacientes adultos. Ainda são comuns os casos em que o diagnóstico demora para ser feito e pouco se sabe sobre a influência de causas externas no seu aparecimento. Na tentativa de obter dados seguros sobre o assunto e quantificar o nível de exposição ambiental com o aparecimento ou não do câncer, será iniciado este mês no País um estudo inédito com mil bebês saudáveis de mães expostas durante a gravidez a derivados de benzeno (composto tóxico de vasta utilização na indústria química), que serão acompanhados até os 18 anos.

O mapeamento será feito por uma equipe do Centro Infantil Boldrini, hospital filantrópico especializado em oncologia e hematologia pediátrica, de Campinas (SP). Segundo a médica Silvia Brandalise, presidente do Centro, o esperado é que de 10 a 15 crianças a cada 100 mil apresentem câncer. O estudo conta com a participação de 11 países e é coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a partir de uma central na Austrália. A partir dos dados obtidos de um total de mais de 1 milhão de crianças em todo o mundo, será possível analisar a incidência e o tipo de câncer em cada região. "É o primeiro passo para conhecermos os fatores de risco do câncer", analisa a médica.

Segundo Silvia, o projeto tem como ponto de partida a constatação de que células cultivadas in vitro, quando submetidas a dose de radiação artificial e derivados de benzeno, apresentam mutação genética, que pode levar ao câncer. A médica afirma ainda que a proposta de participar da pesquisa foi feita pela OMS há quatro anos, mas não havia recursos para custear os questionários, preparação dos profissionais e da infraestrutura necessária. Recentemente o financiamento foi obtido junto ao Instituto Ronald McDonald, que repassou R$ 400 mil para o início dos trabalhos.

Só no Centro Infantil Boldrini são atendidos de 800 a 850 novos casos por ano de doenças hematológicas graves e tumores cancerígenos em crianças, adolescentes e jovens até 29 anos. Embora lembre que o câncer é uma doença multifatorial – não é possível falar em causa e efeito – Silvia Brandalise observa que estamos expostos constantemente a vários fatores (como poluição, pesticidas, fumo) que podem levar a ela, assim como a malformações. Um estudo já realizado no Centro Boldrini, com base em 400 casos coletados entre Campinas, Rio de Janeiro e Brasília, além da central no Canadá e em Londres, mostrou uma relação significativa entre exposição a pesticidas, uso de hormônios na gravidez e o aparecimento da leucemia do lactente.

SUBNOTIFICAÇÃO
Embora nas últimas décadas a linha apontando para o aumento de casos de câncer infantil no País seja ascendente, é possível que esteja acontecendo uma subnotificação dos dados oficiais, pois os hospitais privados não são obrigados a informar ao Ministério da Saúde sobre novos diagnósticos. Este é um dos fatores que dificultam a elaboração de estatísticas sobre o assunto. "Somos um país zerado em informação sobre incidência de doenças que não têm notificação compulsória. O que temos são apenas estimativas. Há países menos desenvolvidos que têm dados mais organizados", afirma o médico Bonald Cavalcante de Figueiredo, diretor científico do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe, de Curitiba.

Um dos projetos de pesquisa realizados no Instituto, na área de Geomedicina, estuda a relação de fatores ambientais e propensão para doenças. De acordo com Figueiredo, na região que compreende o sul de Minas Gerais até o Rio Grande do Sul a incidência de tumor de córtex adrenal em crianças é de 15% a 20% maior que em outras regiões, o que pode ser explicado por uma mutação genética.

O Pequeno Príncipe também desenvolve pesquisas na área de diagnóstico precoce de doenças hemato-oncológicas, entre elas o tumor de córtex adrenal, aumentando as chances de cura. Nesta mesma linha, o Instituto é responsável pelo desenvolvimento do primeiro teste do pezinho de DNA para risco de câncer no mundo e da técnica de teste tipo "Fish", que permitiu a redução de custos de R$ 300 para R$ 15 para diagnóstico de leucemia aguda.

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